Deu errado

#fail1Deveria ter sido um dia para ficar na memória. Tudo estava correto. Um ano depois de uma palestra para qual eu me preparei  durante 3 meses, e que teve como resultado a venda de uma pequena start-up do interior para a maior empresa de tecnologia do país, eu estava novamente no mesmo auditório.

Só que deu tudo errado. O CIAB é o evento de tecnologia da Federação Brasileira de Bancos.  Organização primorosa, estrutura perfeita, telões, câmeras, microfones, retorno. Auditório cheio. O moderador era novamente Keiji Sakai , CIO da Bolsa de Valores e em quem eu nunca penso sem que a palavra ‘cavalheiro’me venha imediatamente à cabeça. Havia uma coisa errada, no entanto, e era eu.

Senti que estava fora do ponto pouco antes de iniciar a palestra, e tive certeza que não ia funcionar menos de dois minutos após ter começado. Não consegui me conectar com o público, os conceitos estavam confusos, as piadas não tinham efeito, eu parecia estar dirigindo em uma estrada esburacada, em que as idéias não fluíam e se chocavam a cada solavanco.

Conforme os minutos passavam dolorosamente, minhas limitações iam ficando mais claras. Os movimentos eram ruins, o tom de voz hesitante, o resultado final morno como os aplausos que eu ainda gentilmente recebi.

Fico aliviado que o público tenha sido salvo pelo talento dos palestrantes que me sucederam, Fabian e Rodrigo, mas eu desci do palco furioso comigo mesmo. Ao encontrar com meu sócio+melhor amigo+espezinhador chefe , Fábio, e meu fiel escudeiro, Neylor, percebi que eles teriam boas horas de diversão na nossa viagem de volta.

E assim passei as 4 horas seguintes ouvindo cada um dos meus muitos erros sendo dissecados às gargalhadas ( eu ria um pouco menos, mas chorar de raiva não adiantaria ).Ambos já me viram falar muitas vezes, entendem o resultado habitual e o tamanho do fiasco de hoje.

Mas o que aconteceu ?

Eu poderia dar várias justificativas quase boas. Excesso de viagens, cansaço mental, muitos eventos ( foram 6 ou 7 só neste mês ). Ocorre que não gosto muito de desculpas. A razão simples foi: não nos esforçamos o suficiente.

No ano passado, sabíamos que o CIAB era a grande chance de nossa empresa, e nos preparamos  de acordo. Gráficos, telas e animações foram feitos e refeitos, conceitos discutidos à exaustão, o roteiro da palestra reescrito uma dezena de vezes. Li três ou quatro livros adicionais sobre um assunto no qual eu já era especialista. Fizemos apresentações-treino e gravações. Foram centenas de horas de trabalho para uma palestra de 30 minutos. O resultado ? Nota 100 em 100 pontos possíveis na avaliação do público que a assistiu, e mais toda a história de cinderela que se seguiu, e que foi além de qualquer coisa que esperávamos.

Eu certamente não achei que o CIAB deste ano era menos importante, até porque devo muito ao evento e à organização. Mas ele era um evento numa esteira longa, e que vinha funcionando bem.  Em retrospectiva, eu fui indulgente com o tempo de preparação, com a organização do conteúdo, com a estrutura conceitual.

Dois pontos provados, portanto. Carisma não existe, ele é só resultado de trabalho duro. Felizmente nosso retrospecto ainda é bom, mas quantos maiores as expectativas, mais temos que trabalhar.

Segundo ponto. No primeiro debate da eleição presidencial americana de 2012 Mitt Romney massacrou Barack Obama, o maior orador de nossa geração. A manchete do New York Times do dia seguinte ao debate dizia ‘ Obama leva uma no queixo’.

Obama retornou no debate seguinte mais forte do que nunca, e não voltou a perder o controle da eleição que acabou ganhando com tranquilidade.

Eu levei meu soco no queixo hoje, e aprendi a lição. Felizmente outras oportunidades virão. Falo novamente no final do mês, em Curitiba e Porto Alegre, e estou fervendo de vontade  não de voltar ao meu padrão habitual, mas de superá-lo.

Falhamos quando nos sentimos seguros demais. É bom se sentir desafiado novamente.